Uma história sobre portas abertas e presenças fechadas.
A porta que você deixou aberta quando foi embora ainda range.
Não por saudade, não se iluda, mas por teimosia.
Ela insiste em lembrar que você saiu depressa demais, sem coragem de encostar a maçaneta e assumir o estrago.
O vento entra por ela sem pedir licença, e espalha pelo chão os restos do que você não soube cuidar. E eu deixo,deixo porque aprendi que algumas correntes de ar são mais sinceras do que certas presenças.
Sua ausência, essa sim, tem uma língua afiada. Corta mais do que qualquer palavra que você já tentou usar para parecer inteiro. É ácida, corrosiva, dessas que mancham até onde não encostam.
Eu sobrevivi ao seu silêncio, ao seu sumiço e até ao eco do seu nome batendo nas paredes. A porta continua aberta. Não por esperança mas porque agora ela serve de aviso.
Quem entra sabe que aqui não se tolera quem não sabe ficar. Aqui não se varre mais migalha de afeto alheio. Aqui não se fecha porta para quem não merece retorno.
Se um dia você passar por ela de novo, tome cuidado, a dobradiça está afiada, e eu também.
Nota do autor: enquanto dirigia ouvi uma música com a frase "a porta que você deixou aberta". Essa frase me inspirou a escrever o texto acima. Então, o texto nada tem a ver com minha vida, somente um exercício literário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário