segunda-feira, 15 de junho de 2026

O ANTÔNIMO QUE DERRUBOU O DOUTOR (e fez o cachorro latir de rir)

O “doutor”, cheio de diploma pendurado até no ego, tava sentado na mesa encardida do boteco do Seu Zé — mesa essa que já tinha visto tanta pinga cair que, se espremesse, dava pra encher um barril. O chão era de cimento batido, com rachadura que parecia mapa de estrada vicinal. E no canto, dormindo como se não tivesse pecado nenhum no mundo, tava o Zé Ruela, o cachorro do boteco.

Zé Ruela era um vira‑lata magro, orelha caída, rabo torto e uma coleção de pulgas tão grande que parecia que ele carregava um condomínio inteiro nas costas. De vez em quando ele dava uma coçada tão forte que levantava poeira, igual redemoinho de agosto. O doutor, claro, fez cara de nojo. O caipira e Seu Zé nem notaram — aquilo ali era só terça‑feira.

O doutor pediu uma amargosa, tirou foto, postou no Instagram com a legenda “vivendo a cultura local”. Zé Ruela, vendo o flash, levantou a cabeça e soltou um latido rouco, como quem diz: “Ô fresco, desliga isso aí.”

Encostado no balcão, o caipira — calça remendada, unha preta de terra, chapéu torto e cheiro de roça — tomava sua amargosa com amburana. O doutor, achando que tava num zoológico humano, começou a filosofar alto, falando difícil, cuspindo palavras que nem ele devia usar em casa.

O caipira só respondia “sei não”, “num sei dizê”, “ahn?”, enquanto Zé Ruela coçava o sovaco e deixava cair mais um punhado de pelo no chão.

Até que o caipira, cansado da frescura, lançou o desafio:

Se o sinhô errá, nóis bebe por sua conta.

O doutor aceitou, cheio de pose:

— E se eu acertar, você me carrega nas costas até a pousada.

Zé Ruela deu um latido curto, como quem ri por dentro.

O caipira ajeitou o chapéu, limpou o nariz com a mão e esfregou na calça remendada:

Qual é o “antoim” de fumo?

O doutor franziu a testa.

— “Antoim”? Não entendi.

— O contrário, uai.

— Ah! O antônimo de fumo! — disse o doutor, todo cheio de si. — Impossível. Não existe antônimo para fumo. Fumo é fumo e pronto.

O caipira abriu um sorriso matreiro, e Zé Ruela, como se entendesse tudo, parou até de coçar.

O antoim di fumo é vortemo. Nóis fumo, dispois nóis vortemo.

Seu Zé gargalhou.
O caipira bateu a mão na mesa.
Zé Ruela latiu, comemorando.
E o doutor… o doutor pagou a rodada.

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